Mantenedor do Kernel do Linux versão 2.4 fala do seu trabalho
29-Jun-2004:
Brasília-DF -
Marcelo Tossati, um brasileiro, nascido em Curitiba, há apenas 21 anos, é o atual mantenedor da versão 2.4 do kernel do Linux. Isso significa que, nos últimos três anos, todas as mudanças dessa versão foram avaliadas e autorizadas por ele.
Hoje ele recebe em média 30 e-mails por dia com relatos de problemas ou sugestões de melhoria. Essas propostas são analisadas e, caso contribuam para melhorar o sistema operacional, são apropriadas na próxima versão do Linux.
Tossati possivelmente é umas das melhores traduções do modelo de produção do software livre. Embora não seja remunerado pelo serviço de manter o kernel, a divulgação do seu trabalho e o reconhecimento entre especialistas da área de tecnologia permitem que ele se posicione permanentemente no mercado de trabalho. Atualmente, ele é funcionário da empresa Cyclades e já atuou na Conectiva.
Apesar de, com tão pouca idade, já ter conquistado respeito e lugar de destaque na comunidade de desenvolvedores de software livre, Tossati tem outros sonhos. Ele quer fazer faculdade para “aprender de verdade” e ampliar os horizontes. Sente falta de um embasamento teórico maior e de refletir sobre alguns temas.
Marcelo Tossati esteve no
ITI para participar do desenvolvimento do Projeto Kernel Blindado e falou da sua experiência como desenvolvedor.
ITI - Onde você trabalha? Escritório? Empresa?
MT - Trabalho em casa.
ITI - Como é o trabalho que você faz como mantenedor?
MT - Eu recebo contribuições. Tem várias listas de e-mails que eu assino. Assim, parte desses e-mails vêm das listas. Meu trabalho é o seguinte: eu sou o ponto de contato com as comunidades de desenvolvedores em relação ao Kernel 2.4 do Linux. Se alguém identifica um problema, peço uma descrição mais detalhada. Se eu não souber sobre aquela área, encaminho para algum desenvolvedor que conheça esse assunto melhor, já que conheço todas as pessoas que mantêm as partes menores do sistema. Esse trabalho é como se fosse uma pirâmide.
ITI - Como funciona essa pirâmide?
MT - As pirâmides têm um mantededor de uma área, há várias pessoas que trabalham embaixo dele. Ás vezes, o primeiro passa para uma pessoa “abaixo” dele analisar o problema. A pessoa avalia e, geralmente, responde diretamente para aquele que reportou o problema. Eles conversam direto e me mandam uma cópia do mensagem. Então eu consigo acompanhar tudo que está acontecendo. Quando é possível, elas resolvem o problema e me enviam a correção. Eu estudo essa correção e uso um sistema de controle em que aplico essa modificação dizendo o que ela faz, porque ela foi incluída e etc. Como resultado de todo esse trabalho de agrupamento a cada dois meses, em média, eu gero versões principais.
ITI - Existe no Brasil outra pessoa que faça o seu trabalho?
MT - Não. Existem pessoas que sabem o tanto ou até mais do que eu mas, nesse caso, só eu posso fazer esse trabalho.
ITI - Faça uma comparação do tempo de correção do sistema proprietário e do sistema livre.
MT - A correção no livre é praticamente instantânea na maioria das vezes. Geralmente é muito rápida, pois o código está disponível e várias pessoas o conhecem. No proprietário, teria a necessidade de passar por toda uma bateria de testes e com o software livre você pode, por exemplo, pegar só aquela correção de um item que você está tendo problema e usar em uma versão que você já vem usando, eliminando a necessidade de testes.
ITI - A partir do momento em que está corrigido já fica disponível?
MT - Existem as versões principais. No caso a 2.4. A atual e oficial é a 2.4.26.
ITI - Todo mundo que trabalha com Linux pode automaticamente acessar as modificações a qualquer hora?
MT - Sim, é totalmente aberto. As pessoas têm a correção, denomidada de “patch”, que é um formato de modificação. Qualquer pessoa pode usar esse “patch” e aplicar na sua versão. Não há nenhum tipo de fechamento, até as novidades que estão em desenvolvimento podem ser acompanhadas.
Com o sistema proprietário é praticamente impossível. Você fica dependente da empresa que possui o código fonte, fica sem saber o que está acontecendo. Você só sabe do resultado, mas internamente você não sabe de nada. Com o código aberto você pode dominar tudo, ver o que está acontecendo.