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Presidente do ITI fala sobre software livre em entrevista aberta ao público



SergioConip
Presidente do ITI, no Conip, durante entrevista aberta ao público



22-Jun-2004: São Paulo - SP -

Hoje, no Conip, o presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, Sérgio Amadeu, concedeu uma entrevista aberta ao público, mediada pelo jornalista Renato Cruz de O Estado de São Paulo. Conheça abaixo os principais trechos.

Renato Cruz - O que o senhor acha da Microsoft?

Sergio Amadeu – É uma empresa de tecnologia que, atualmente, trabalha com um paradigma que está mudando. No entanto, eles têm a opção de rever esta estratégia negocial a qualquer momento.

RC - Mudou a visão do Governo em relação à Microsoft depois do questionamento feito na justiça?

SA - Não posso responder por todas as autoridades do Governo. No entanto, na minha visão sobre o processo, acho que erraram profundamente. Eles, de certa maneira, tiveram um problema de postura. Exageraram. É inusitado o que fizeram. Nós estamos trabalhando com uma política para a implementação de Software Livre e não contra esta ou aquela empresa.

RC – O que você faz para apresentar a questão do software livre para o dirigente de serviço público que não entende de tecnologia?

SA – Em geral a pessoa não quer saber de tecnologia, mas é usuária. Aí eu mostro o meu laptop que tem uma série de SL, rodando muito bem, com as vantagens de serem mais estáveis e não pagarem royalties a ninguém. Além de serem desenvolvidos compartilhadamente e se a pessoa quiser pode até ter acesso ao código. Se ele conhecer um pouco mais de tecnologia, eu mostro o servidor Apache. Se conhecer ainda mais, eu mostro uma série de outras soluções como detecção de intrusão, de defesa, de estabilidade, de segurança lógica, tudo em SL.

RC – Entre os casos de uso de SL, podemos citar na iniciativa privada as Casas Bahia e entre empresas a Petrobrás. Qual o grande caso de uso no Governo Federal?

SA – Serpro, Dataprev, o próprio ITI . Além do forte processo de migração em alguns órgãos como o Ministério das Cidades, Cultura, Marinha, Aeronáutica, Comunicações e Minas e Energia. Vale lembrar que 58 órgãos aderiram voluntariamente ao Comitê de Implementação do Software Livre e estão desenvolvendo outras aplicações em SL. Como os imposto de rende que hoje é multiplataforma.

RC – Que métricas estão sendo utilizadas para mensurar os gastos e economias gerados com a migração? Além do tempo para isto?

SA – Cada órgão requer um planejamento minucioso. No sentido geral, definimos três passos para avançarmos nas migrações:

Libertar as estações de trabalho. Desenvolver novos sistemas em SL – isto significa exigir, da empresa desenvolvedora, a entrega do código fonte e os 4 direitos (de usar o software para qualquer finalidade, de estudar completamete aquele software, de melhorar e alterar na hora que quiser e redistribuir). Afinal, foi o Governo que pagou por isso. Assim, quando você fala fazer desenvolvimento em SL é basicamente ter independência perante qualquer fornecedor. Migrar apenas os sistemas que impeçam os dois passos anteriores, pois não tem sentido mudar aquilo que funciona.

Nós fizemos um planejamen estratégico que envolveu 140 servidores de 54 órgãos públicos, de 25 e 26 de agosto de 2003. Este ano faremos um balanço do planejamento. E aí poderemos apurar os números e os processos iniciados.

RC - Você vê a possibilidade de substituir estas 300 mil estações em quanto tempo?

SA – Com o lançamento do Guia de Referência de Migração para SL, iniciativa conjunta dos Comitês Técnicos de Implementação de Software Livre e de Legados e Licenças, será colocado à disposição uma série de sugestões para auxiliar nesse processo. Esta é uma primeira versão, a ser atualizada anualmente. Se os Ministérios implantarem o SL em desktops e servidores teremos um efeito em rede. Sem termos uma base histórica, fica difícil afirmar se em, 2 ou 3 anos, teremos 50% dos desktops de toda administração pública federal ou mais utilizando SL. Nós sabemos, porém, que a economia da informação é sujeita a efeitos de rede, ou seja, se o negócio funciona bem ele se multiplica muito rapidamente. É essa a idéia. Toda vez que se for trocando os computdores, vá se instalando o software livre.

RC - Como a política de software livre do governo se encaixa na política industrial de exportação de software. Como ganhar dinheiro exportando software livre. O suporte e serviço normalmente não é local?

SA – As maiores empresas de TI no mundo estão deixando de viver de licença. A maior empresa de TI do Brasil tem menos de 20% de seu ganho com licença, a maior parte vem de serviços prestados como desenvolvimento de soluções. Quanto mais casos de SL tivermos no Brasil, mais seremos procurados para migrar empresas e bancos na Europa, como já está ocorrendo.

A grande saída para o Brasil é aproveitar o serviços e o conhecimento em software livre e vender essa expertise lá fora como diferencial competitivo. Como será feito com a poderosa indústria de games. O Brasil tem condições de competir com os americanos? Até temos, mas no modelo de software proprietário você não tem diferencial. Se a opção for desenvolver jogos em software livre, se fazendo relacionamento com o portal de jogos é possível ganhar dinheiro. O internauta paga para jogar no portal e para acessar durante um período. Além disso, usando SL, o usuário poderá baixar o jogo e acessar o código fonte. Alguns jovens mais interessados, além de jogar, poderão ainda entrar na comunidade de desenvolvimento do game e partipar na nova versão dos jogos.

Então vamos fazer games em código aberto, diferenciado, com inteligência nossa, com linguagem java. Eu acho que o espaço do Brasil, para exportação de software de prateleira, é muito limitado.